21 de setembro de 2010


Estava no comboio, numa das muitas viagens intermináveis da faculdade até casa. Prefiro não sentir isso então afundo-me num livro qualquer. Adormecida em frases não tive tempo de reagir às portas que se abriam e deixavam entrar um cheiro familiar. Feijão preto quente, esmagado, vendido ao quilo e natas caseiras distribuídas em sacos de plástico. É o cheiro de uma casa guatemalteca por la mañana. Acordamos, ou semi-acordamos e vamos colados às paredes com pés preguiçosos arrastando-nos até à mesa. O cheiro pode ser palpável. Submetida à realidade implacável de que metade de nós está noutro lado.
O cheiro deixou-me trocada, incapaz de prosseguir uma leitura coerente por isso massacrei os meus ouvidos com arco-íris daquela banda dos senhores que têm rádios na cabeça. De vez em quando não me importo de foder assim os ouvidos. Sem me terem feito nada preciso de os castigar como se merecessem. Subo o máximo do volume para ganhar ao comboio.
O homem não pode ficar sentado e imóvel à espera de morrer. Temos de nos ir matando aos poucos. Para custar menos, para não ser repentino. Para não culpar ninguém.
Há tantas outras bandas novas...
pausa*
mas criei um laço forte com este álbum. As pessoas também se apaixonam pelas coisas. E isso pode durar a  vida inteira.
Caramba, como estou cansada e ainda nada começou. O meu corpo não está a acompanhar o resto daquilo-que-quer-que-seja-a-nossa-outra-parte. Ninguém se lembra das costelas. Eu nunca me lembro delas. Só me lembro quando estas ameaçam de forma vingativa estrangular e sufocar o coração e os pulmões. E cá estão elas. A serem odiosas, a não entenderem que preciso da sua compaixão. Da sua prudência. Querem aterrorizar-me e tornam-se mãos mecânicas, computadorizadas pelo cérebro, que às vezes é nosso inimigo.
O corpo é uma questão incontrolável. Mas é mesmo isto que nos dá graça, esta incapacidade crónica faminta de alimento.
No Domingo fui ver a minha avó. Cada semana que a vou ver está cada vez mais velha. O Erasmo e os outros grandes, tinham razão, a velhice é (de forma decrescente) a fase mais próxima da infância, em tudo, até no seu físico. Ela teve de ir para um lar. Já não se arranjam pessoas de confiança para estarem 24h dentro da intimidade de um corpo velho, dentro da sua casa, a remexer na sua vida. Foi doloroso, mas teve de ser.
De qualquer maneira no Domingo levámo-la a casa. Já não ia a casa da minha avó há meses. Cheirava a carne podre. Com certeza algum rato morto por ali. Ou um pássaro. Ao olhar para a minha avó precisei urgentemente de ter uma garantia de que o tempo não consegue, por muito que queira, levar as coisas com tanta rapidez. Por isso fiz a minha visita pela casa, é o meu ritual. Serve-me de consolo. Mesmo sabendo que as coisas já não são assim isto ilude-me e faz-me acreditar de que ainda posso encontrar o meu avô no seu escritório agarrado a uma guitarra portuguesa e a cantarolar uma popularidade qualquer. A afinar e desafinar cordas, a esticar e cortar. Sentado naquele sofá à luz de um candeeiro de metal comido pela ferrugem (o espaço e o tempo não perdoam nada, não poupam nada, nem um simples e humilde candeeiro). Faz-me acreditar de que os natais ainda são passados naquela casa. Não carrego nenhuma dúvida, os meus melhores natais foram ali. Carregados de infância. Eu  e os meus primos fazíamos acampamentos de sofás em frente da lareira e falávamos de tolices, apenas tolices. As coisas sérias não têm grande lugar na felicidade. Íamos espreitando de vez em quando as galas de natal que iam passando na velha televisão que apanha mal a sic e que nem apanha rtp2. Aquele cheiro a comida, a filhoses da avó e doces da tia Bela, a alcatifa e a almofadas de lã. Deve ser por ligar tanto ao cheiro das coisas que não suporto usar perfumes. Fazem-me comichão. Não têm nada a ver comigo. O tempo tira-nos estas coisas boas, e deixa-nos um vazio até encontrarmos de novo outra coisa que (quase) substitua isso. E os anos do meu avô...ó como eu gostava dos anos do meu avô! A aldeia enchia a casa, o rancho trazia a maquinaria e fazia-se a festa. Barulho até tarde. E caras desconhecidas. Como eu adorava os anos do meu avô... As ferias de verão. Acordar cedo só para ir andar de baloiço. Como batíamos uns nos outros para ficar com o baloiço foram sendo acrescentadas cordas aos ramos daquela arvore velha, mas implacável, para criar mais baloiços, chegou a aguentar quatro ao mesmo tempo. As coisas que ali não se faziam...
A minha cabeça transborda memórias daquela casa. Transborda leite com Nesquik (ou nesquit como diz a minha avó).
Assim que tive possibilidade saí de casa para começar como eu ia dizendo, o meu ritual. Com um molho de chaves na mão. Descalça no pátio. Nesta época de calor, a velha arvore deixa cair umas bolinhas que nunca soubemos bem o que eram, e cobre o chão dum tapete movediço de preto-castanho esverdeado. Atravesso-o até a um sitio que me estremece, não ganho nada em dizer o porquê. Memórias, apenas eu entenderia mesmo tentando explicar. Começo, espreito a casa do forno do pão (a minha prima Raquel roubava massa crua à minha avó e comia e eu não podia contar nada a ninguém, shiu ), espreito o antigo galinheiro, onde de vez em quando me armava em forte e ia lá buscar os ovos, naquele mundo de penas e seres loucos que cheiram a feno. Agora vazio. Uma pena. Elas tinham um ar tão amigável. Ao lado a casa de ferramentas do meu avô onde não sei porquê desde miúda recusei a meter os pés, ou sei, de cá de fora avista-se lá dentro, presa a uma coluna, uma foice, uma foice e outros instrumentos raros...coisas presas ao tecto de vigas de madeira e telhas. Também nunca lá entrei porque essa casa não tinha luz e torna tudo mais arrepiante.
Mesmo assim a casa do forno é que eu gosto mesmo, quando o meu avô fazia descargas de milho e nos sentava-mos todos no chão a dividir os grãos, não quero falar sobre isto, vêm-me uma angústia arrebatadora que me desola. Atravessei o pátio até ao outro lado, subi as escadas do jardim que ha pouco tempo se lhes pôs um corrimão, e fui ao primeiro sótão remexi em velhos brinquedos, patins, umas bicicletas velhas e outras tralhas à mistura, saio e vou ao segundo sótão, este é mais interessante, tem livros empoeirados, cadernos antigos dos tempos de escola do meu avô, algumas maquinas esquisitas, e ratos mortos a serem ironicamente comidos por pequenas formigas canibalescas. Folhas roídas com receitas de chás medicinais, coisas alternativas às aspirinas, aos ben-u-rons e essas coisas. Da minha bisavó. Era curandeira. Não bruxa, curandeira. Saio e vou a um 3º sótão que estupidamente só descobri há coisa de 3, 4 anos. Quando me apercebi de como era bonita aquela traseira da casa é que me dei conta de uma pequena porta lá em cima, e de um escadote feito com madeira e pregos velhos tirado no chão. Escondido pelas ervas daninhas. Levanto-o e encosto-o à parede; sim, aquele escadote foi feito à medida para chegar àquela pequena porta. As portas são sempre misteriosamente bonitas. Misteriosamente temíveis. Antes de voltar a entrar em casa subo ao poço. Está intacto. Embrulha esta ó tempo!, pensei eu. Entro, há coisas que já não estão nada iguais, a mesa da maquina de costura mudou de lugar, o quarto onde dormia com os meus irmãos já não tem duas camas. Como era bom acordar naquele quarto. De paredes geladas mas sempre aconchegante, naqueles lençóis de flanela, que juntamente com pijamas de flanela nos prendiam os movimentos à noite. Aquele quarto, onde se jogou durante anos ao 'quarto escuro', saio, espreito o quarto ao lado, pouco ou nada mudou este. Passo para o escritório, o tal sofá, as guitarras, e os outros instrumentos do meu avô, as pautas, o móvel com gavetas cheias de coisas que apetece guardar nos bolsos e levar connosco para todo o lado. Para sempre. Correr, ajuda-las a que o tempo não as engula. Fotos, carradas de fotos antigas. Encosto-me à parede e recordo os concursos de talentos musicais que fazia com a minha irmã, e com as minhas primas, ali mesmo. Parece que nos imagino. Loucas. Despreocupadas. Histéricas e eufóricas. Montava-mos os microfones do meu avô e o resto era uma questão de faz-de-conta e risos de alegria. Apetecia-me ficar ali encostada. A rogar pragas ao tempo. A culpa-lo. A chama-lo de demónio. A pedir-lhe explicações e a ameaça-lo por se meter na vida de toda a gente, metediço. Saio, contino-o...
Tem tantos espaços e em cada canto há qualquer coisa que me apetece contar-vos, mas era uma conversa sem fim, a memória é um fio, quanto mais se puxa mais ele sai, mais ele sai, mais ele sai. Mais se puxa. Cada espaço tem um cheiro, um pormenor, um momento.
E cá está o tempo, que já me levou o meu único cão que tinha desde miúda, que já me levou o Nico, o cão do meu avô, que já me levou esse mesmo avô, e que agora se prepara para levar uma avó.
É assim a vida, mais curta que comprida.
Vasculhei aqui umas fotos. Velhas.

Parece quase a mesma coisa. Parece.

2 comentários:

Catarina disse...

ola! lembras-te de mim ? do blog- catarina-hotdog.blogspot.com ... ?
tenho um novo- catherine-cannelle.blogspot.com, se puderes segue-me nesse sff ^^ kiss

marianalolita! disse...

gosto taaaaaaaanto do teu sorriso!